Finalmente, o Direito brasileiro tem a Tecnologia semântica pra ser a bola da vez

Finalmente, o Direito brasileiro tem a Tecnologia semântica pra ser a bola da vez

Deixa eu te fazer uma pergunta direta: quando foi a última vez que você ouviu alguém dizer que o setor jurídico era o mais inovador do país? Pois é. Durante anos, o Direito brasileiro foi tratado como o primo conservador das grandes transformações tecnológicas presente nas mesas de decisão, mas raramente no centro da disrupção. Isso está mudando. E mudando rápido.

Em 2026, o Direito brasileiro entra no momento de inflexão tecnológica

Os primeiros sinais de que algo ia mudar nos anos 2000

A história da tecnologia no #Direito brasileiro não começa em 2018. Começa antes, de forma discreta e, em grande parte, conduzida pelo próprio Estado.

Ainda nos anos 2000, o CNJ iniciou o desenvolvimento do PJe, o Processo Judicial Eletrônico. Em 2011, o sistema foi oficialmente lançado. Em 2013, uma resolução nacional tornou sua adoção obrigatória em todo o Judiciário brasileiro. Era o primeiro passo concreto em direção à digitalização da Justiça: processos que viviam em volumes de papel, distribuídos em corredores de cartórios, começavam a migrar para telas. Lento, cheio de resistência, com implantações que duraram anos, mas começando.

No mesmo período, grandes fornecedores de tecnologia como a Benner , TOTVS juriTIs Fácil Espaider, Thomson Reuters CoCounsel Legal outros ERPs, já atendiam departamentos jurídicos corporativos com módulos de gestão de processos, gestão de contratos e outras colchas de retalhos incorporadas de outros setores, dando conta de uma primeira ponte entre a lógica da gestão empresarial e o universo jurídico. Mostravam que era possível estruturar fluxos, controlar prazos e organizar dados em um setor historicamente avesso à padronização.

Era apenas o prenúncio. Uma mudança estrutural já começava a se formar, embora poucos fossem capazes de percebê-la. O terreno estava sendo preparado silenciosamente, mesmo sendo o Direito um dos setores mais conservadores da economia, resistente à adoção de novas tecnologias e profundamente dependente de processos manuais. Durante décadas, essa dependência não foi vista como uma ineficiência a ser corrigida, mas como uma característica inerente à própria prática jurídica.

2017: quando a promessa das lawtechs encontrou a realidade

Há pouco mais de oito anos, o ecossistema jurídico brasileiro vivia um momento de euforia tímida. As #lawtechs começavam a surgir com uma proposta sedutora: automatizar, digitalizar, escalar. Contratos inteligentes, plataformas de gestão processual, consultas jurídicas online, gestão de dados. O mercado respondia com curiosidade e cautela.

Naquela época, escrevi sobre os desafios que as lawtechs enfrentariam no Brasil, e a pergunta central era simples: o advogado brasileiro estava preparado para a inovação? A resposta, honestamente, era não. Mas não por falta de inteligência. Por falta de cultura digital, de maturidade analítica, estrutura e, sobretudo, de investimento.

O que se viu nos anos seguintes foi uma sequência de testes corajosos e quedas silenciosas. Startups que captaram seed money, construíram MVPs, encontraram os primeiros clientes e então bateram em um muro.  O muro da resistência e cultura do questionamento jurídico, bem como da escala para os investidores.

A armadilha da escala: por que o Direito ficou para trás

Em praticamente todos os setores impactados pela tecnologia, houve um ponto de inflexão em que a inovação deixou de ser opcional e passou a redefinir as regras do jogo. Finanças, saúde, educação e varejo já atravessaram esse ciclo. No Direito brasileiro, ele chegou mais tarde. E não por acaso.

O desafio central das lawtechs sempre foi tecnológico, mas não no sentido tradicional. O problema não era processar mais dados, e sim compreender significado, contexto e linguagem. Em outras palavras, era um desafio de tecnologia semântica. O Direito não opera com dados estruturados e limpos como uma planilha financeira. Ele opera com linguagem. E uma linguagem densa, cheia de nuances, interpretações históricas, contextos normativos e contradições legítimas entre entendimentos de tribunais diferentes. Um contrato de 40 páginas ou um processo judicial de 200 páginas não são apenas um simples arquivo de texto. São artefatos culturais e jurídicos carregados de décadas de prática e precedentes.

Com exceção da Jusbrasil Soluções que conseguiu um modelo de receita implacável no B2C oferecendo um buscador para consultar e entender processos judiciais, suprindo a necessidade de falta de informação do advogado, as primeiras gerações lawtechs tentaram resolver desafios gerais, com muitas ideias em ebulição, por meio de algumas automação, geração de documentos, estruturação dos dados básicos dos processos. Soluções que entregavam eficiência em tarefas padronizadas e de baixa complexidade. Mas, à medida que os casos exigiam interpretação, contexto e julgamento, a tecnologia encontrava seus limites. A confiança dos advogados diminuía e o interesse dos investidores saia de campo.

Os investidores de venture capital aprenderam rapidamente uma lição importante sobre o mercado jurídico: o ticket médio era menor do que o projetado, os ciclos de venda eram longos, a resistência à mudança dentro de escritórios e departamentos jurídicos era elevada e os produtos dependiam de intensa curadoria humana para manter níveis aceitáveis de confiabilidade. O retorno sobre o investimento existia, mas raramente acompanhava a velocidade esperada pelo capital de risco. E, no universo das startups, velocidade não é apenas uma vantagem competitiva, é uma condição de sobrevivência.

A evolução do advogado (que ninguém esperava)

Mas algo interessante aconteceu enquanto o investimento externo hesitava: o advogado foi evoluindo por dentro. Lentamente, mas evoluindo.

Surgiram os departamentos jurídicos que começaram a adotar #LegalOps que é gestão operacional do jurídico com métricas, KPIs, governança de fornecedores e controle de custos. O #LegalDesign trouxe uma perspectiva nova: e se o Direito fosse pensado com foco no usuário? Contratos visuais, linguagem simplificada, fluxos decisórios intuitivos. A #eficiênciajurídica deixou de ser um ideal etéreo e virou pauta de diretoria. A criação de comunidades para questionar e ampliar a visão do tema, através de influenciadores de redes sociais e cursos Online promovidos por novas escolas como a Future Law e Trybe foram deixando o gramado bonito.

Tem mais! O ecossistema jurídico brasileiro é amplamente reconhecido como um dos mais vibrantes do mundo. Com mais de 600 lawtechs ativas, o Brasil não apenas lidera na América Latina, mas figura como uma potência global comparável aos maiores mercados da Europa e dos Estados Unidos, tudo isso graças a comunidade engajada da AB2L – Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs e os brilhantes empreendedores que entregam todo seu sor pra fazer essa bola rolar.

O advogado que em 2017 tinha medo de assinar um contrato digital, em 2022 já gerenciava contratos em plataformas SaaS. Aquele que torcia o nariz para automação passou a cobrar do time de TI a integração dos sistemas, os mais curiosos se engajaram na análise de dados para entender como os dados ajudam na tomada de decisão. A maturidade digital do operador do Direito avançou, não na velocidade que o mercado de tecnologia queria, mas avançou.

O problema era que a tecnologia disponível ainda não conseguia acompanhar o nível de sofisticação que o Direito exige. Isso não se aplicava apenas às lawtechs, mas também à qualquer empresas de tecnologia que era contratada para desenvolver algo para um departamento ou escritório. Havia competência, demanda e intenção de inovar. Faltava, porém, a capacidade tecnológica necessária para entregar valor de forma consistente. Era como ter um atleta de alto desempenho treinando sem os equipamentos adequados.

A virada: IA agêntica e a tecnologia semântica que faltavam

E então chegamos a 2026. Me refiro a esse ano, pois em 2025 essa história ainda estava muito incipiente. Os grandes modelos de linguagem evoluíram para algo qualitativamente diferente: a IA agêntica. Não se trata mais de um chatbot que responde perguntas. Trata-se de sistemas semi-autônomos capazes de perceber, raciocinar, agir, e, crucialmente, de operar sobre linguagem complexa com uma capacidade semântica que nenhuma tecnologia anterior possuía.

Para o Direito brasileiro, isso muda tudo. Porque o grande obstáculo sempre foi exatamente esse: a interpretação semântica em dezenas de textos e fontes diferentes de dados desestruturados. Um agente de IA hoje consegue analisar milhares de decisões judiciais cruzando precedentes, identificar inconsistências entre normas esparsas, construir argumentos a partir de legislações de diferentes esferas, analisando antes de tudo, o que ocorreu nos registros do caso de forma administrativa, e fazer isso 24 horas por dia, com custo marginal cabível em muitos bolsos, como amplificador do raciocínio jurídico humano.

A professora Kate Kellogg, do MIT Sloan, define bem: agentes de IA podem executar planos de várias etapas, usar ferramentas externas e interagir com ambientes digitais para funcionar como componentes poderosos em fluxos de trabalho maiores. No contexto jurídico, isso significa que um agente pode preparar a due diligence, identificar cláusulas de risco, monitorar mudanças regulatórias e sinalizar inconsistências, enquanto o advogado faz o que só o advogado pode fazer: estratégia, relacionamento como cliente, julgamento e pensamento criativo para uma solução inovadora.

O advogado precisa continuar sendo criativo — mais do que nunca

Há um equívoco comum que precisa ser desmontado antes que crie raízes: a ideia de que a IA agêntica vai tornar o advogado um mero supervisor de outputs automáticos.

Pense comigo: A IA devolve padrões. Ela é extraordinariamente boa em reconhecer, classificar e reproduzir estruturas que já existem nos dados com que foi treinada. Ela encontra a jurisprudência, mapeia o precedente, cruza normas, formata a peça. Faz isso com uma velocidade e consistência que nenhum time humano consegue alcançar em escala.

Mas o Direito não vive apenas de padrões. Vive de teses inéditas, de argumentos que ainda não existem nos bancos de dados, de estratégias construídas na interseção de contextos que nenhum modelo previu. De novos problemas que ocorridos na sociedade. É exatamente aí que o advogado humano pode ser mais poderoso do que jamais foi.

Pense assim: se a IA cuida do que é repetível, o advogado fica livre para o que é único. A criatividade jurídica, que é implacável e sempre existiu, mas ainda vive sufocada por pilhas de tarefas operacionais, ganha espaço para respirar. A ideia que fica na gaveta por falta de tempo agora pode virar tese, virar produto, virar precedente, virar livro, virar curso. O profissional que souber combinar raciocínio jurídico com orquestração de agentes de IA vai operar em uma dimensão de capacidade criativa e produtiva que simplesmente não existia antes.

O investimento bilionário que estava esperando o momento certo

Jensen Huang, CEO da Nvidia, declarou na CES 2025 que os agentes de IA empresariais criariam uma oportunidade multibilionária em todos os setores — da medicina à engenharia de software. O Direito está nessa lista. E desta vez, com argumentos sólidos para atrair o capital que antes hesitava.

Os números do mercado global já não deixam dúvida. Segundo o Future Market Insights, o mercado global de legaltechs deve atingir US$ 68 bilhões até 2034. Só no primeiro trimestre de 2026, legaltechs ao redor do mundo movimentaram US$ 1,42 bilhão em rodadas de investimento, cerca de um terço de tudo que o setor captou em 2025 inteiro.

O sinal mais claro dessa mudança veio do Brasil. Durante anos, o país ficou à margem das grandes apostas globais em tecnologia jurídica. Isso mudou com a Enter. Fundada em 2023, a empresa atraiu fundos como Sequoia Capital, Founders Fund, Ribbit Capital e Kaszek, alcançando valuation superior a US$ 1 bilhão em tempo recorde. O que está por trás dessa trajetória não é apenas o sucesso de uma startup. É o reconhecimento de que a inteligência artificial finalmente atingiu um nível de maturidade capaz de enfrentar a complexidade do trabalho jurídico em escala.

A consolidação da Enter como unicórnio não apenas validou a tese da inteligência artificial aplicada ao Direito, mas também desencadeou uma nova corrida competitiva no setor. Outro exemplo é a Tako , startup originalmente focada em folha de pagamento e recrutamento, que lançou a unidade Tako Legal para atuar diretamente no contencioso trabalhista. A aposta é sustentada por um mercado estimado em R$ 140 bilhões anuais em custos relacionados à gestão trabalhista, dos quais cerca de R$ 90 bilhões estão ligados a litígios. Mais do que o surgimento de um novo concorrente, esse movimento demonstra que a IA jurídica deixou de ser uma aposta de nicho para se tornar uma oportunidade estratégica capaz de atrair empreendedores, investidores e empresas de tecnologia de diferentes segmentos.

E mais uma: A MinutaIA , plataforma de geração de documentos jurídicos por IA desenvolvida pela startup jAI, lançada em fevereiro de 2025, atingiu a marca de 10 milhões de minutas jurídicas geradas em menos de um ano. O número não é apenas impressionante em volume: é um indicador de confiança institucional. Escritórios, empresas e órgãos públicos estão entregando produção jurídica real a sistemas de IA, e os resultados têm sustentado essa aposta.

Essas empresas não são promessas. São novas provas vivas de que a barreira semântica que travou o setor por anos finalmente está sendo transposta e que o capital global reconhece isso.

Mas atenção: o hype não resolve a governança

Seria desonesto terminar este texto sem um alerta. A mesma complexidade que torna o Direito o território mais promissor para a IA agêntica é o que torna a sua implementação mais arriscada.

Um agente que interpreta mal uma cláusula contratual ou aplica um precedente inadequado não produz apenas um erro técnico, produz um dano jurídico real. A questão da responsabilidade ainda é nebulosa: quem responde quando a IA agente erra numa decisão que afeta direitos? O operador? O desenvolvedor? A empresa que implantou?

É imprescindível que todas as organizações, especialmente as do setor jurídico,  construam estratégias robustas de governança, segurança e gestão de riscos antes de implantar agentes de IA em fluxos de trabalho críticos. Não como burocracia. Como condição de confiança.

Experiências internacionais mostram que até 80% do esforço de implantação ainda é consumido por tarefas de engenharia de dados, padronização e integração de fluxos. Tecnologia de ponta com dado de baixa qualidade entrega resultado medíocre. No Direito, com consequências ainda mais sérias.

O Direito está pronto. Está o ecossistema?

Depois de oito anos de testes, aprendizados, frustrações e amadurecimento silencioso, o setor jurídico brasileiro chega a 2026 com uma convergência rara: profissionais mais preparados tecnologicamente, uma IA que finalmente alcança a complexidade semântica do Direito, e um mercado global movendo capital significativo nessa direção.

O Brasil concentra 1,4 milhão de advogados, a maior proporção por habitante do mundo, e um sistema judicial com quase 80 milhões de processos ativos. Não existe mercado mais complexo. Nem, por isso mesmo, mais promissor para quem souber entregar tecnologia à altura.

A bola da vez finalmente chegou ao pé do Direito.

A questão agora não é mais se a tecnologia vai transformar o setor jurídico. É como os players do setor vão jogar esse jogo de transformação, ou se vão ficar apenas assistindo.

—